Gata de Rodas - São Paulo Cycle Chic

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Audax, Rio e o gosto de cereja

Quando comecei esse blog, estava apaixonada pela ideia de cycle chic e torcia meu lindo e arrebitado narizinho para as roupas de lycra e o ciclismo esportivo, competitivo e cheio de testosterona. Mas se tem uma coisa na minha vida com poder de transformação, é a bicicleta. Prova das mudanças está na minha garagem: a Carlota, Caloi roxa de cestinha, fica aí para emergências e empréstimos. Ao lado, a Siouxie, K2 que adora uma trilha e não dispensa uma cicloviagem, foi a companheira no processo todo de ficar ágil no trânsito, condicionar o corpo e a cabeça para ver o mundo em duas rodas com vento no rosto e numa velocidade humana. E chegou um novo membro à família: Perla Bianca, dobrável, feminina e elegante. Arisca e indócil, como eu. Promete ser mon p'tit vélo dos passeios com charme e nostalgia, para deixar minha vida mais tranquila. Nenhuma das bicicletas foi fruto de pesquisa e escolha obsessivas: ao contrário, foram elas que me acharam. Minha speed, com a qual já comecei a sonhar, está aí em algum lugar. Tenho certeza de que ela começou a me procurar também, e logo mais vamos nos trombar em alguma curva.


Tudo isso para ilustrar como a bicicleta não tem papéis definidos mais na minha vida. Ela permeia docemente tudo que eu faço. Ano passado, virou meu meio de deslocamento principal. Esse ano, outra febre me tomou. Depois das cicloviagens, vi que podia pedalar mais e a distância entre os louquinhos sangue no zoio caiu um pouco, o suficiente apenas para nascer a vontade de pedalar morros, cruzar serras e me despencar de ladeiras, virando quilometragens maiores no odômetro. Daí que resolvi fazer o Desafio 100 lá no Rio. É uma prova preparatória para o Audax, que eu quero muito fazer. O Audax é uma prova de resistência não competitiva. O objetivo é completar a quilometragem no tempo previsto, que pode ser de 200 km, 300 km, 400 km, 600 km ou 1.000 km. Cada prova completada dá direito à participação na próxima. Tendo todos os brevets, o ciclista pode participar da Paris-Brest-Paris, de 1.200 km. A ideia toda é muito francesa e muito atraente - nada me empolga mais do que competir comigo mesma, de ver paisagens lindas, de estar na estrada.


E a primeira prova do ano era no Rio, cidade para onde eu passei anos protelando a viagem. Mas o convite para o Revéillon foi irresistível. Um "carioca de pneu furado e coração cheio" me apaixonou pela cidade e me reencantou com várias coisas na vida que eu tinha esquecido como eram boas e fundamentais. Como no road movie de Kiarostami, meu ano novo teve gosto de cereja. Nessa viagem, faltou encontrar muita gente que fazia parte da minha vida já, por meios online. Voltei, dessa vez acompanhada da Siouxie, e fiquei com a sensação de que a cada ida vou deixar mais de mim por lá.


Não completei a prova. Depois de subir Paineiras e passar pelo primeiro posto de controle, descemos eu, o Marcos Nicolaiewsky e o Curupas pelo começo da Estrada de Furnas, e perdemos a saída para a Vista Chinesa. Vai confiar nos cariocas para ver o que acontece... :-p Fomos parar lá embaixo, na estrada para a Barra, uns 400 metros de descida. Toca subir de volta 5 km num sol de rachar o coco. De volta à rota, na Vista Chinesa, a hora perdida e as duas baixas anteriores acabaram abatendo meu moral. Rendi-me à possibilidade de banho, caipirinha e uma tarde preguiçosa depois de tanto morro. Isso traz duas implicações: a primeira é a vontade louca de completar o percurso, e a segunda é o gostinho de vitória de subir Paineiras de um jeito tão gostoso. Foi incrível e lindo, lindo, lindo.


Pensei muito se esse post cabia aqui ou na Dupla Vida. E acho que o lugar dele é no Gata de Rodas, porque eu não pude deixar de espalhar o cycle chic com meus saltinhos no Rio de Janeiro, e porque não acredito nas barreiras mentais que as pessoas gostam de se impor. Quem começa na bike esportivamente tem uma certa dificuldade em aceitar ideias ligadas ao cicloativismo e mobilidade urbana em duas rodas sem motor. E os cicloativistas gostam de menosprezar o gear esportivo, as bikes bacanas e a loucura por melhorar a performance, que cedo ou tarde atinge quem pedala por esporte. Eu tenho fome de tudo: de sair para resolver minha vida com uma bike qualquer, de pedal com picnic e vinho, de dormir sob a lua depois de carregar tudo que eu preciso no meu bagageiro e de descer a milhão no asfalto. Quero uma vida sem limites e com gosto de cereja.

16 comentários:

  1. Saboro de ler... gosto de... cereja!

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  2. Adoro a última, mas a primeira foto está ótima.

    Pena que não estava em condições de ir desta vez...

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  3. Vocês dois são pessoinhas que sempre fazem falta nessas viagens, seus bicicletudos.

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  4. EHHHHHHHH! Eu que tirei a foto da gata (Vê) na subida da Rua Alice!! Nossa me senti honrada, agora!

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  5. Lindo texto Vê! Parabéns! Tenha tudo, menina linda, e com sabor de cereja!
    Grande beijo da companheira de começo de jornada

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  6. Marina, desculpa não ter colocado os créditos! Falha minha! Estou vendo um jeito de colocá-los todos bonitinhos... foi ótima a companhia no começo da prova! O próximo post será sobre a mulherada do pedal... acho que vc vai gostar!

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  7. Magina, que crédito nada, só brinquei! A Máquina era sua, vc já tinha feito tudo, só apertei o botãozinho...Sendo só eu a sabedoura é o que me basta. Depois, apaguemos estes posts, e pronto!
    Desculpe, era só brincadeirinha!
    Beijos MPB

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  8. Certeza que a speed vai te achar um dia, e a mim também, hahahahaha.

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  9. ia até a padaria, ir para o trabalho, passeio no final de semana, cicloturismo, brevet, audax. Uma ceci, uma mtb, uma mtb transada com pneus finos, bagageiro, uma speed e depois de tudo isso com a alma lavada espero que sua fixa te encontre também e assim a gente vai pedalando.

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  10. Olá!

    Cheguei ao seu blog nem lembro como. Provavelmente procurando por capacetes ou lojas de bike na cidade.

    Atualmente uso a bike só pra lazer, mas simpatizo muito com quem a defende como um meio de transporte (muito mais civilizado que o motorizado *aham*).

    Gostei da sua iniciativa e espero ver novas entradas no blog em breve!

    Beijo

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  11. Olá!

    Depois de uma looonga ausência, voltei para me deliciar com seus posts!
    E imperdoável foi deixar de ler justamente o post q vc fala sobre sua deliciosa visita ao Rio!

    Como havia comentado com vc aqui, para mim q comecei tendo a bike como veículo para a minha liberdade e principalmente para testar meus limites físicos, vê-la pelos olhos do cicloativismo ou de uma forma "romântica" ñ foi fácil, até descobrir seu blog. Resultado: a Briza (minha dobrável) chegou para me proporcionar novas experiências! Algumas q já sonhei só ao ler posts aqui.

    Em breve estarei divulgando o resultado da sua influência nessa baianeira-carioca q muito mais q gostar de pedalar ama o que qq bicicleta é capaz de proporcionar!

    Bjos e volte logo!

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  12. speeds femininas são tão raras no brasil... o quadro é ligeiramente mais curto que as bikes padrão. considere mandar fazer um quadro sob medida, isso sim o cúmulo doluxo, mas menos caro do que algums modelos importados...

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  13. Imagine, outro dia fui até Grumari com um grupo de Lycra e eu de camisa recifense de algodão de saco...Ninguém falou comigo! Quer dizer, perguntaram porque que eu levava um alforge, e eu pensei, nada não...imaginando que o saco de dormir e o vinho foram levados à toa, já que era claro que um lual não devia estar nos planos de um grupo que sai para pedalar até Grumari, rs. Bom ler seus posts!

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  14. Essa tua ideia geral era tudo de que eu precisava... Adorei!

    Beijo,
    Su (the next chiquitosa a posar nas streets)

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  15. Quando estiver no Rio de Janeiro, venha nos visitar. Somos a pedal 2, organizadores das provas de audax aqui do estado.
    para mais informações e conversas sobre cultura de Bicicleta:
    oficinadebicicleta.wordpress.com
    http://www.rio.audax.org.br/
    pedaldois@gmail.com
    21 - 22253502
    Beto

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